25/05/2013

“Transportar pessoas é um ato de carinho e dedicação”. A frase do fundador da Turismo Santa Rita, Jerônimo Ardito, resume bem um dos principais motivos de a empresa de ônibus chegar à meio centenário de operações, apesar de todas as mudanças e desafios na sociedade, na economia e nas cidades que ocorreram neste tempo: colocar o bem estar do passageiro em primeiro lugar.
Neste sábado, dia 25 de maio, a empresa realizou uma comemoração especial aos 50 anos, na sua garagem em Ermelino Matarazzo, zona Leste da Capital Paulista.
A companhia nasceu de um sonho de emancipação de um jovem, filho de um feirante nos anos de 1960.
Desde 14 anos de idade, Jerônimo ajudava o pai, Gennaro, nas feiras-livres em São Paulo. Mas ao completar 18 anos de idade, ele quis se emancipar, caminhar com as próprias pernas e trilhar um novo caminho.
O pai queria a companhia do filho, mas sabia que não poderia impedi-lo. Foi aí que ele comprou um táxi para Jerônimo, que começou a ter um contato com o mundo dos transportes.
Mas Jerônimo queria mais, algo no que pudesse atuar de forma independente.
Em São Paulo, entre os anos de 1950 e 1960, todas as placas dos táxis começavam com o número 10. Depois havia mais quatro algarismos. Por coincidência, a placa do Ford ano 1941 de Jerônimo tinha como os outros quatro números depois do 10, 1-9-5-9, justamente o ano que ele recebeu o veículo do pai.
Numa das viagens do 101959, levando um passageiro do Largo da Penha para o Aeroporto de Congonhas, Jerônimo viu um ônibus ainda com o cofre do motor do lado externo, estilo jardineira, à venda num estacionamento.
O veículo chamou a atenção de Jerônimo que ao voltar da corrida, decidiu ver ônibus. Era abril de 1963. Jerônimo não tinha experiência em transportes coletivos, quando adquiriu o ônibus, não tinha nenhuma linha ou serviço de ônibus à vista, mas ele tinha sonho, ideal e quem sabe, um instinto.
Ele comprou o pequeno ônibus. Seu primeiro serviço: levar uma banda de música de Guarulhos para tocar em seu casamento.
A compra do ônibus causou temor na família. Afinal, foi uma mudança radical.
O táxi foi usado na compra.Pouco tempo depois, um amigo vendeu para ele um serviço de fretamento contínuo para uma indústria em Santo Amaro, zona Sul de São Paulo. Jerônimo começou a atuar transportando os funcionários de uma metalúrgica da Avenida João Dias com a Rua dos Missionários, em Santo Amaro, até o Largo da Concórdia, no centro da Capital Paulista.
Como era com os pioneiros dos transportes, com Jerônimo não foi diferente. Ele dirigia, administrava os negócios, limpava o ônibus e fazia manutenção. Era só um ônibus e, se o veículo apresentasse problema, tinha de ser consertado à noite. Os trabalhadores da metalúrgica não podiam ficar sem transporte.
UMA ESTRELA DO CINEMA ENTRA NA VIDA DA SANTA RITA:
Jerônimo viu que não poderia correr o risco de perder o serviço e deixar os passageiros sem atendimento. Foi quando em 1964 decidiu comprar um ônibus para reserva.
Entra para a empresa o segundo veículo da Santa Rita, considerado por Jerônimo o primeiro ônibus, por não ter a frente como de jardineira e sim reta, como a dos ônibus atuais. Era um ônibus GMC 1954, chamado popularmente de Coachinho.
O veículo é conservado até hoje pela empresa e traz uma curiosidade. Antes de ser operado pela Santa Rita, o ônibus era usado para fazer as filmagens de “O Vigilante Rodoviário”, a primeira série brasileira que tinha como protagonistas o Inspetor Carlos e seu fiel companheiro, o cão Pastor Lobo. A série fez sucesso pela TV Tupi de São Paulo e começou a ser exibida em março de 1961.
O ônibus seria reserva, mas pouco tempo depois, Jerônimo conseguiu mais um serviço, desta vez transportando passageiros da empresa de eletricidade de São Paulo e que antes da CMTC operava os bondes da Capital Paulista, Light. O ônibus servia o escritório da empresa, na Xavier de Toledo, região central de São Paulo.
UMA SÃO PAULO SEM TRANSPORTES URBANOS:
Se hoje a cidade de São Paulo possui várias carências no setor de transportes urbanos, no passado, a situação era bem mais complicada.
Entre os anos de 1950 e 1960, com a política desenvolvimentista, principalmente a partir da gestão do presidente da República, Juscelino Kubitscheck de Oliveira, a industrialização se tornou uma realidade, principalmente no Sudeste do País. A população em São Paulo crescia a níveis elevados e os serviços de transportes urbanos nem sempre davam conta da demanda.
Foi acompanhando este processo que muitas empresas de ônibus de fretamento foram formadas e se desenvolveram.
“Nos anúncios de emprego, as fábricas de São Paulo e do ABC Paulista enfatizavam que além de bons salários e oportunidades, ofereciam transporte fretado para seus funcionários” – relembra Jerônimo.
Com mais um ônibus, era necessário mais um motorista.
Entrava na empresa o primeiro condutor contratado pela companhia. Até então os ônibus eram dirigidos por Jerônimo e seu irmão, Milton, também fundador da companhia.
O primeiro motorista, João Guirado, era vizinho de Jerônimo. Ele era jovem, em 1964 quando assumiu o trabalho, tinha pouca experiência, pouco tempo de carteira de habilitação, mas garante que Jerônimo e Milton foram fundamentais em sua carreira.
“As pessoas fazem auto-escola, eu fiz a universidade do volante. Jerônimo e Milton entendem muito de direção e fui aprendendo com eles” – contou João, que não poderia ter faltado à celebração deste sábado.
Dirigir ônibus nunca foi uma tarefa para qualquer um. Apesar de hoje não ser uma profissão que deveria receber o valor que possui, lidar com vidas e máquinas enormes e potentes requer experiência e habilidade.
Mas no passado, com tecnologia bem mais simples em comparação aos ônibus de hoje e com vias sem pavimentação ou com tamanho inadequado para veículos de grande porte era mais desafiador ainda. E alguns macetes se aprendia na prática.
“Minha primeira viagem de turismo, fora o fretamento para empresas, foi para Pirapora do Bom Jesus (cidade da Grande São Paulo). Eu fui com o “Gmecinho” Jardineira e o senhor Jerônimo com o Coachinho atrás. Num determinado momento, vi que o Jerônimo dava sinais com o farol alto toda a hora para mim, mas eu nem me dava conta do que era. Quando chegamos ao final do trajeto, depois de muita descida, meu ônibus era uma fumaceira só. É que eu descia freando e os freios daquela época não são como os de hoje. Deu superaquecimento. Foi aí que aprendi que não se desce freando todo o percurso, mas controlando o ônibus na embreagem” – relembra João.
O motorista também se recorda de uma São Paulo com carência de transportes e a necessidade das pessoas por ônibus.
“Depois de levarmos os funcionários da empresa que nos contratavam, fazíamos uma espécie de lotação do centro de São Paulo para Vila Carrão. Encostávamos nos pontos e gritávamos: – Vila Carrão, quem vai? Era impressionante como o ônibus lotava. Teve uma vez que de tão cheio, o parabrisa do ônibus, com passageiros até na frente exprimidos, se soltou no meio da viagem. São Paulo precisava de mais transportes” – relembra o motorista João Guirado.
Às vezes ele tinha a ajuda de um cobrador especial: Adalberto Mattera, primo de Jerônimo e desde cedo apaixonado por ônibus.
Mattera hoje é pesquisador da história de transportes e possui um acervo de milhares de materiais, como fotos antigas, cartas que trocava com os donos de empresas de ônibus da época e reportagens.
Quando alcançou a maioridade, Mattera foi trabalhar em outros setores, mas sua paixão e proximidade com ônibus continuavam.
Tanto é que aos finais de semana, ele não tinha dúvidas: por puro prazer e sem receber por isso, dirigia os ônibus da Santa Rita para viagens, como para a cidade de Aparecida.
“Apesar de não trabalhar na empresa, parte de minha vida era na garagem e com os ônibus. Lembro que havia chegado um monobloco da Mercedes Benz na concessionária Tapajós aqui em São Paulo. Na parte da noite, pulamos o muro da concessionária para ver de perto o modelo que depois teríamos na frota” – relembra Adalberto.
Ele também era responsável por desenhar a pintura dos ônibus da Santa Rita, considerada moderna para a época. A Santa Rita foi a primeira empresa de São Paulo, segundo conta, a usar tinta metálica nos veículos.A grande dificuldade era pintar as faixas na lataria. O trabalho tinha de sair perfeito. Então, o pintor de funilaria dava o fundo da cor do ônibus, Adalberto fazia as faixas para depois o trabalho ser finalizado. E se não saísse perfeito, tinha de ser refeito.
O cuidado com os ônibus e até mesmo a colocação de itens estéticos a mais são relembrados por Fermino Kozak, representante da encarroçadora Comil, em São Paulo, na época Incasel.
“O primeiro ônibus que a Incasel comercializou para a Santa Rita foi um modelo Continental. O interessante é que vendíamos o ônibus, depois nem quase o reconhecíamos. O ônibus era todo equipado, recebia um padrão estético mais refinado e até hoje temos orgulho de manter essa parceria com a empresa” – conta Fermino que disse que a Comil deve entregar nos próximos dias dez unidades zero quilômetro do modelo Campione.
Prova de que a empresa, que possui um dos maiores acervos de ônibus antigos preservados, está atenta às tendências de renovação de frota, qualificação dos motoristas para atenderem a passageiros cada vez mais exigentes e adaptação às novas legislações sobre o setor de fretamento.
Fermino entregou uma placa dourada comemorativa para a direção da Turismo Santa Rita.
A Turismo Santa Rita também trabalha com as encarroçadoras Caio, Marcopolo e Volare (pertencente a Marcopolo e que vende ônibus de pequeno porte completos e não apenas carrocerias).
Investir de acordo com a capacidade da empresa, valorizar funcionários e passageiros e acima de tudo ter paixão pelo que se faz. Estas são algumas das características que fazem com que uma empresa de transportes atravesse décadas.


Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes
Com agradecimentos especiais a Antônio Kaio Castro, presidente e fundador do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasilero./blog Ponto de ônibus

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