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25/11/2017

Há quem diga que as arenas trouxeram um novo público aos estádios. Concordo. Estou entre os que acreditam nessa tese. Além de mais dinheiro, prestígio e modernidade, os novos palcos do futebol nacional também agregaram muito e deram uma ‘repaginada’ no perfil da galera. Se antes, o público era majoritariamente jovem e do sexo masculino, as novidades de concreto embalam agora famílias – leiam-se crianças, idosos e, principalmente, mulheres, que passaram a fazer dos estádios o seu lazer número um.

Não tenho uma pesquisa para mostrar o que estou dizendo, mas posso afirmar com a experiência de quem frequenta os estádios há mais de 30 anos: o perfil mudou e muito. Agora, há muito mais gente com maior poder aquisitivo, muito mais gente com grau de instrução elevado, com faculdade, e muito mais gente que sequer sabia o que era uma bola antes do ‘boom’ das novas arenas brasileiras.

Para os mais tradicionais, isso é muito ruim; alegam que esse tipo de torcida não tem vibração, não conhece a história do clube e só vai aos jogos para tirar selfies a fim de postar nas redes sociais. Já os mais democráticos rebatem essa fala e dizem que essa tendência é bem-vinda porque o clube fatura mais, as arenas ficam mais cheias, mais bonitas, e a violência vem diminuindo à medida que mais mulheres, crianças e idosos se unem ao ‘velho’ tipo de torcedor.

Lembro-me que mulher era algo tão raro, mas tão raro nos estádios, nos anos de 1980, quando aparecia uma, todo mundo parava para ‘mexer’ com a moça. Por isso, eu acho, elas não iam com frequência. Nem banheiro adequado havia para elas. Com isso, a torcida era formada somente pelos descendentes de Adão. Atualmente, a estrutura é outra: além de banheiro feminino, as arenas contam com estacionamento, serviço de manobrista, elevador, escada rolante, restaurante, shopping… quase um mundo dos sonhos. E, de quebra, ainda tem futebol!

Sou oriundo da Zona Leste de São Paulo e posso testemunhar essa mudança. Antes de chegar a Piracicaba, morava em Ermelino Matarazzo, bairro que fica a dez minutos de carro do Itaquerão. Após a casa corintiana ser aberta por lá, vários membros de minha família, que nunca tinham entrado em um estádio na vida, passaram a frequentar a arena. E mais: uma amiga minha professora do Cangaíba, região da Penha, uma prima de São Miguel Paulista, uma tia do Itaim Paulista… todas, como em um passe de mágica, viraram “um bando de loucos” (ou loucas, no caso). No outro lado da cidade, na Zona Oeste, também tenho certeza de que houve esse mesmo fenômeno, agora no Allianz Parque.

O lado ruim dessa história é que o tíquete médio para entrar no espetáculo encareceu muito – até porque alguém tem de pagar a conta, já que a manutenção é caríssima. Mas, mesmo assim, nunca se viu tanta gente torcendo ‘in loco’ como agora. O Corinthians tem média de público no Brasileirão 2017 de quase 40 mil pessoas por jogo; o Palmeiras mais de 30 mil por partida. Sinal de que essa mistura Torcedor Raiz e Torcedor Nutella tem dado certo. E esperamos que essa união siga assim, para a felicidade de todos.

Erivan Monteiro é jornalista e cronista esportivo

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