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28/03/2010

Acompanhe na íntegra texto publicado no Jornal Inverta:

Aumenta mortalidade juvenil por armas letais


No mês de julho saiu uma triste estimativa sobre o número de mortes de jovens no Brasil. Mais de 33,5 jovens, entre 12 a 19 anos, perderão a vida, caso os índices de violência não mudem, vitimados por armas letais. A fonte dessa pesquisa é a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), ligada à presidência da República e à Secretaria dos direitos humanos, com o Indicador de Homicídios (IHA).

Aumenta mortalidade juvenil por armas letais

“Nossa linda juventude

Página de um livro bom

Canta que te quero

Cais e calor

Claro como o sol raiou

Claro como o sol raiou…”

Flávio Venturini

No mês de julho saiu uma triste estimativa sobre o número de mortes de jovens no Brasil. Mais de 33,5 jovens, entre 12 a 19 anos, perderão a vida, caso os índices de violência não mudem, vitimados por armas letais. A fonte dessa pesquisa é a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), ligada à presidência da República e à Secretaria dos direitos humanos, com o Indicador de Homicídios (IHA).

Mas pessoas não são puras estatísticas frias e sem dor. Sim, existe a dor das mães que perdem seus filhos assassinados. Principalmente por policiais ou grupo de extermínio na periferia de São Paulo.

Na região leste da cidade, no bairro de Ermelino Matarazzo, distante aproximadamente 40 km da região central (Praça da Sé), moradores, trabalhadores assalariados como frentistas, garçons, babás, bombeiros, domésticas, mecânicos, seguem a dura vida de assalariados do capital sem muitos recursos culturais e financeiros. Arriscam a sorte todos os dias deixando seus filhos sem ter o que fazer e à mercê da força do consumo do dia-a-dia para serem inseridos num mundo fantástico da grife da moda capitalista com tênis, camiseta e calça de marca, vomitada todos os dias pela mídia eletrônica. Sem emprego e com uma escola distante da realidade que só serve para alienar os educandos a uma condição de vida de conformismo e acomodação, deparam-se com um estado violento e corrupto, que cria as condições reais pra que aconteça isto: mortes e chacinas.

Condicionadas a um círculo mórbido e real de um Brasil periférico como o de Ermelino Matarazzo, estão dadas as condições para a destruição de uma infância e adolescência através do tráfico de drogas, que emprega facilmente os jovens em seu exército de trabalhadores a serviço do tráfico, onde um jovem pode ganhar facilmente de R$ 30,00 a 40,00 por dia como olheiro. Um garoto que serve os clientes ganha R$400,00 por semana e um gerente até R$1.500,00 por semana. Não muito longe de Ermelino Matarazzo, num bairro de classe média da zona leste, é possível ver um menino de 8 anos de idade trabalhando de olheiro para o tráfico. Dentro deste círculo existe um grupo de comerciantes locais que precisam de segurança privada, ou seja, de policiais fazendo bico, ou seja, trabalhando nas horas de folga. E na ponta de todo esse processo está a ROTA (Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar). Isto apenas para ilustrar o que eu estou relatando: crimes de guerra.

É esta lógica de guerra que explica alguns dados tétricos. Dos 12 mil mortos da ROTA, Barcellos identificou 4.200. Destes, 680 eram crianças entre 7 e 11 anos, em geral executadas com um tiro na nuca. A transformação da FEBEM (em especial quando foi presidida por Saulo Ramos, secretário de segurança pública do estado de são Paulo na gestão do governador Geraldo Alckmin, em 2001) em campo de concentração e tortura de jovens (principalmente as unidades de Franco da Rocha) e as recorrentes denúncias de extermínio de crianças e adolescentes de rua fazem parte desta orientação bélica. (Caco Barcelos, livro Rota 66).

Na gestão Alckmin/Saulo, porém, a situação chegou a um ponto que, pelo caráter permanente, pelo grau de arbitrariedade e violência envolvidos e pela condição das vítimas (civis desarmados), só encontra paralelo na Palestina ocupada. (Fonte de pesquisa dos direitos humanos publicados).

Pois bem, retomando esse círculo de violência contra o jovens e crianças, estão os comerciantes locais pedindo uma limpeza do seu entorno, onde circundam viciados em drogas ilícitas e atrapalham seus negócios. Começa então esse extermínio, que se transformaram em estatísticas.

Mães rasgam a pele e arrancam de seus peitos o coração com a mão, numa dor sem fim ao ver seu filho num caixão pobre e de papelão, cedido pela prefeitura. Essas mulheres mergulham numa terra de cova como se estivessem mergulhando seu rebento de volta ao seu ventre. É muito triste! Leva qualquer ser humano que tenha um mínimo de sensibilidade à depressão ver da luz à escuridão de uma cova rasa do Cemitério da Vila Formosa.

Em Guaianazes, uma mulher faxineira perdeu os três filhos numa chacina. As lágrimas secam, nada jorra de seus olhos a não ser uma dor feroz e latente que salta do peito e pode até levar à morte. Então, apesar de tudo isso essa brava mulher encontrou forças para continuar a vida e trabalhar. Só para efeito de lembrança da ROTA, nenhum desses meninos tinha passagem na polícia. Num conjunto habitacional de Ermelino Matarazzo a polícia costuma invadir sua área de estacionamento e até apartamentos de moradores alegando estar à procura de marginais. Entram nas casas de pessoas de bem, que são trabalhadoras. É o direito constitucional não sendo respeitado. Por outro lado, há leis por parte do tráfico que devem ser respeitadas. Caminhando no fio da navalha, o trabalhador não tem seus direitos constitucionais respeitados por parte do Estado e devem respeitar o paralelo.

Se alguém fizer uma visita no maior cemitério da América Latina e observar as lápides pobres verá as datas de nascimento dos mortos 1986,1987,1991, 2000 e escudos do times de futebol. Em vida, só fica a dor de quem perdeu seu filho e não tem para quem reclamar ou o que fazer, a não ser contar com a solidariedade de seus iguais, que emprestam o ombro para ajudar na cicatrização da dor sentida, porque alguém desapareceu de seus olhos e que não verás jamais. Resta saber como ajudar essas mães a curar essa dor.

De seu coração, de seu ventre, de suas lágrimas… Como fecundar o amor numa pessoa que perdeu tudo e nada tem? Nem a sua prole? Direi ao meu peito que a dor também pode ser dividida e compartilho com todas mães e pais o lamento de suas lágrimas. Mas sei que no gotejar de uma de suas lágrimas fará brotar desse solo latino-americano a justiça que buscamos há mais de 500 anos e varreremos de nossas terras aqueles que oprimem e só trazem dor. E com certeza nascerá uma nova civilização que jamais deverá rimar poesia com mais-valia.

“Que há sol nascente avermelhando o céu escuro

Chamando os homens pro seu tempo de viver

E que as crianças cantem livres sobre os muros

E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor

E que o passado abra os presentes pro futuro

Que não dormiu e preparou o amanhecer…”

Taiguara

Wilson Ribeiro

morador da Zona Leste SP

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