03/07/2013

Única produtora de celofanes da América Latina e penúltima fábrica em funcionamento pertencente ao Grupo Matarazzo, a Celosul fundada em 1941 teve suas portas fechadas na última sexta-feira, 28, por determinação da 3ª Vara Cível de São Miguel Paulista.Força policial amparou o Oficial de Justiça na reitegração de posse. A disputa judicial envolve uma dívida da Cooperativa de Produção dos Trabalhadores da Indústria de Papel Celofone (Coopercel) com o Grupo Matarazzo, referente ao aluguel do conjunto industrial localizado em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo.

Formada por antigos funcionários da própria Matarazzo, a Coopercel vinha mantendo a fábrica de celofanes em atividade desde 1994, após acordo com as Indústrias Matarazzo de Embalagens Ltda (IMESA). “Eles foram à concordata e não tinham mais como tocar a fábrica, nem como pagar as indenizações”, afirma Nissivaldo Lopes, um dos diretores da cooperativa. Com o objetivo de manter a produção e os postos de trabalho, a Coopercel assumiu o passivo trabalhista da antiga IMESA e os débitos de eletricidade que a Matarazzo tinha com a Eletropaulo. “Conseguimos reerguer a fábrica e pagar R$ 4 milhões em dívida com diversos credores”, diz o diretor da cooperativa.

Desde então, outros R$ 10 milhões foram investidos na compra de maquinário e na construção de dois novos prédios no terreno, segundo dados da Coopercel. Um novo acordo, firmado em 2011, determinava o pagamento mensal de R$ 60 mil ao Grupo Matarazzo pelo aluguel do conjunto industrial. Segundo Lopes, a cooperativa atrasou o débito referente ao mês de março. “Tivemos prejuízos na produção”, justifica.

A Celosul produzia uma média de 60 toneladas de celofane por mês, sendo a única fornecedora do material na América Latina. Cerca de 150 cooperados trabalhavam na fábrica, além de profissionais terceirizados, como seguranças e jardineiros. “Nos pegaram de surpresa, estamos com material comprado preso no galpão”, afirma o diretor da Coopercel. Entre celulose e químicos, seriam mais de R$ 200 mil retidos na fábrica desde sexta-feira, após o cumprimento da decisão judicial.

Com o fechamento da Celosul, se torna ainda mais próximo do fim o ciclo da família Matarazzo, detentora do maior grupo industrial existente na América Latina no século XX. Com cerca de 200 fábricas e 30 mil funcionários, os empreendimentos da Família Matarazzo produziam sabonetes, banha de porco, farinha de trigo, biscoitos e louça, entre outros itens.

Segundo a cooperativa, a antiga diretoria lesou os cooperados ao afirmar que os valores estavam sendo pagos em dia. Quando a nova diretoria, encabeçada pelo presidente Valdemar assumiu encontrou a situação da cooperativa em estado pré-falimentar e uma dívida de aluguel do conjunto industrial da Matarazzo em quase R$ 4 milhões de reais.  Da parte da Matarazzo, Maria Pia Matarazzo, presidente da IRFM, estava irredutível em se fazer um novo acordo com a cooperativa e manter a produção da única fábrica de papel celofane na América Latina. Para ela, a cooperativa não honrou o último contrato que previa o pagamento mensal de aluguel do conjunto industrial e equipamentos e marcas no valor de R$ 60 mil reais mensais e não teria capacidade para manter o arrendamento do conjunto.

        Nos último meses, a Coopercel vinha numa ascendente em sua produção, saltando em 50% a produção do papel celofane para 50 toneladas do produto, sendo que nos últimos meses fabricou cerca de 25 toneladas do produto.

        A Coopercel, acreditava ainda em um novo acordo com Maria Pia, para manter o posto de 100 cooperados em atividade. Segundo estimativas da empresa, foram investidos cerca de R$ 10 milhões de reais desde o início do arrendamento da Celosul. Para isto, recorreu até a empréstimos internos com cooperados para abertura de uma linha de crédito junto ao Bradesco, o que possibilitou a manutenção da operação durante o ano de 2013.

        No mesmo pólo industrial da IRFM, localizado em Ermelino Matarazzo, zona leste da capital paulista, funcionam a empresa Viscofan, fabricante de tripas artificiais, que já pertenceu a Matarazzo e hoje é de uma empresa espanhola e a Matflex, que fabrica tecido não tramado (tnt), esta última com administração direta do Grupo Matarazzo. A Matflex, está com produção parada há cerca de duas semanas, oficialmente a empresa alega manutenção dos equipamentos, mas segundo fontes da empresa, a Matflex não vem recebendo pedidos para a compra do Nontex, famoso tecido que ficou conhecido por revestir o sabonete Francis, que pertencia ao Grupo Matarazzo.      Na Matflex, trabalham cerca de 40 pessoas.

Fonte: Estadão e  Everton Calisto(*)
(*) Everton Calício, estuda jornalismo e é pesquisador e memorialista tendo enfoque em uma pesquisa que realiza há mais de 15 anos sobre a trajetória da Família Matarazzo no Brasil, bem como a história da S/A Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo-IRFM. Recentemente, em janeiro deste ano, organizou no Museu Histórico de São Caetano do Sul a exposição “FIDES-HONOR-lABOR” Cem anos de Matarazzo em São Caetano do Sul, primeira mostra do gênero no país a retratar a história do Grupo Matarazzo.  
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