11/08/2017

hospital ermelino lateralReportagem do Estadão revela que equipe responsável por queda de morte cardíaca não pode mais atender pacientes como os de Ermelino Matarazzo.

Às seis e meia da tarde de quinta-feira, uma copeira entrou na unidade de cateterismo cardíaco do Hospital São Paulo, da Unifesp, carregando uma única refeição numa marmita de alumínio, acompanhada de um copo de gelatina. Naquele dia, apenas um paciente havia sido atendido ali, casa da Faculdade Paulista de Medicina (FPM). Na sala de recuperação da hemodinâmica, na qual é monitorado quem passou por procedimentos cardíacos invasivos, oito leitos com enxoval limpo e monitores ligados estavam vazios. Outras três salas de cirurgia, completamente equipadas, ficaram o dia todo sem uso.

Sem insumos básicos e com equipamentos sem manutenção, médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos de raio-X esperavam, sem ter o que fazer. “O dia em que mais atendemos é às quintas-feiras”, diz Adriano Pereira Barbosa, médico assistente da hemodinâmica. “Numa situação normal, teríamos feito umas 20 intervenções e essa sala de recuperação estaria cheia.”

Crises crônicas. Apesar de o Hospital São Paulo já ter passado por muitas dificuldades ligadas à sua gestão, o cenário agravou-se nos últimos seis meses. “Estou aqui há 30 anos e nunca vi situação parecida”, diz Angelo. No dia em que o Estado visitou a unidade, faltavam catéteres, fios de angioplastia, remédios, gaze e havia uma série de aparelhos parados, esperando manutenção. “O que tem de mais caro, que somos nós, profissionais preparados, bem remunerados e com anos de experiência, está sendo desperdiçado”, afirma. “A população, que paga por tudo isso e precisa, fica sem atendimento.”

O principal problema, dizem os médicos, não é o atendimento interrompido. Mas sim o desmonte do trabalho feito com 14 hospitais do SUS. Por quase uma década, foram feitos treinamentos, implantados serviços de telemedicina e montado um sistema de comunicação sem interrupção. Assim, quando um enfartado era atendido em Ermelino Matarazzo, por exemplo, ele recebia o primeiro tratamento ali e era imediatamente transferido ao Hospital São Paulo. Em uma década, foram atendidos 2.360 pacientes, dos quais 2.010 enfartados. O índice de morte pelo problema, que chegava a 20%, caiu para 5,4%. “Nunca recusamos um paciente”, diz Angelo.

Agora, a unidade atende apenas as emergências que já estão no ambulatório do hospital, como o paciente tratado na quinta. Com uma arritmia, ele teve alta no dia seguinte. Há quatro meses, não é feita nenhuma cirurgia eletiva. Não há um balanço do que está acontecendo com os que deixaram de ser atendidos no Hospital São Paulo.

Em maior ou menor escala, as outras áreas da FPM passam pelo mesmo problema. O departamento de doenças degenerativas, por exemplo, tem tido dificuldade em pagar o aluguel da casa onde funciona, nas imediações.

Há, além disso, inúmeros casos parecidos em toda Unifesp, cuja verba de custeio foi cortada em 13% e o investimento em 30%. Desse total, foram liberados, respectivamente, 70% e 40% até agora. Entre os casos, há o de uma professora do campus de São Jose dos Campos, que faz em impressoras 3D próteses para crianças.

“Em agosto, não renovaremos contratos de 600 tutores que faziam a monitoria de ensino para o SUS”, diz Soraya Smaili, reitora da Unifesp. Como outros órgãos públicos, a universidade expandiu fortemente nos últimos anos. Os docentes, por exemplo, foram de 600 para 1.500. Foram abertos campi em Osasco, Santos, São José dos Campos, entre outros.

 

Também estariam ali pelo menos quatro residentes e de cinco a oito estudantes de Medicina, sem contar com os de Enfermagem e Fisioterapia. Numa das salas de cirurgia, ainda está colado num equipamento o desenho feito por um aluno, com o passo a passo para usá-lo. Embaixo, uma espécie de joystick improvisado, que os estudantes tentaram consertar, quando a manutenção deixou de ser feita. “Os alunos foram espalhados pelos hospitais com que temos parcerias”, diz Angelo Amato de Paola, professor de cardiologia da EPM, também da equipe. “O aprendizado não é igual, mas pelo menos eles não ficam tão desestimulados

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