23/01/2011

Laura Barbosa Puche tem apenas oito anos e já é bailarina há dois. É que aos seis anos sua mãe Marineide da Costa Barbosa Puche, 48, propôs à filha que ela desse seus primeiros passos com uma sapatilha. Ouviu muitas recusas até a pequena Laura conhecer o CEU Quinta do Sol, na Zona Leste, e decidir iniciar ali sua história na dança. Depois de dois anos de saltos, alongamentos, espacates e pliès, Laura foi aprovada para, em 2011, ser a mais nova aluna da Escola Municipal de Bailados do Theatro Municipal de São Paulo, onde se formam bailarinos de projeção nacional e internacional.
Da resistência de Laura em aprender à vontade de sair dançando, bastou o sorriso de Naiene Sanchez, a jovem bailarina de 23 anos que decidiu viver para ensinar uma arte que poucas crianças da periferia têm a possibilidade de conhecer. “As meninas são carentes de referência, por isso é maravilhoso estar com a dança dentro de um equipamento público afastado do Centro”. Tamanha dedicação contagiou Laura. “Quando ela conheceu a Naiene foi uma paixão”, lembra a mãe Marineide.
Mestra e aprendiz iniciaram juntas sua história de dança no CEU. Naiene dava suas primeiras aulas e Laura ainda nem era alfabetizada. Os ensinamentos com o corpo em movimento eram aperfeiçoados com a aula teórica, que deveria ser toda registrada em um caderno. “A professora mandava eu pegar o caderninho e ela me ajudava, agora eu escrevo com letra de fôrma e de mão”, conta Laurinha, orgulhosa. “Ela foi incentivada a ler e escrever com a dança”, explica Naiene.
A pequena melhorou o alongamento e hoje se orgulha de seu espacate, a abertura de pernas em um ângulo de 180º, deixando-as paralelas ao solo.
Naiene se tornou coordenadora do Núcleo Cultural do CEU Quinta do Sol e chamou uma de suas alunas, Fernanda, de 19 anos, para ajudá-la na missão de ensinar a dança para um grupo de 20 crianças e jovens. “Escolher viver de dança não é simples: a gente não tem tempo de viajar, temos pé feio, muitos hematomas, mas dança é vida e eu fico muito contente de levar o que chamo de vida para regiões que têm dificuldade para ter acesso a isso”.
O dia 8 de dezembro, data da seleção para a Escola de Bailados do Theatro Municipal, foi longo para mãe e filha. “Eu comprei um gel bem forte com um brilho lilás que ela gosta”, conta a mãe. O fixador tinha de dar conta de unir o coque alto à franjinha de Laura, que não poderia ter qualquer fio solto. A roupa separada foi apenas o collant rosa, nada de sapatilha nem de meias, para os examinadores verem todo o alongamento das jovens. Roupa e cabelo no lugar, era hora de pegar o metrô na Zona Leste até o Centro de São Paulo, onde fica o
Theatro Municipal. O teste estava marcado para as 17h, mas 10 minutos antes as candidatas já se separaram de seus acompanhantes para os preparativos finais: banheiro, retoques e um “boa sorte”.
“A gente entrou, fez um alongamento, tinha uma pianista e enquanto ela tocava tinha que dançar e quando ela parava a gente ia para o círculo fazer uma pose. Depois, a professora pediu para fazer a sexta posição, dar um salto e um pulo pequeno e depois nós fomos para casa”, conta Laura, resumindo o que foi aquela tarde. Para a professora Naiene, a aluna mostrou cada detalhe da prova no Theatro. “Ela criou uma dança a partir dos passos que aprendeu aqui. Até demorei para pegar no sono no dia em que ela me mostrou o seu teste”.
Quando voltou ao Municipal com sua mãe e viu que foi aprovada, Laura deu pulos de alegria. Para a mãe, agora é um misto de alegria e surpresas: “Vamos ter que nos esforçar para trazê-la, mas vai dar tudo certo”. Laurinha, como é chamada pela família, já pensa no dia que entrar para o corpo de baile. “Achei muito bonito porque eu vou ter aula com uma pianista. Mas ia ser mais legal se tivesse o violino”.

Fonte: D. O. C. S. Paulo

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