Envie esta notícia para seus amigos de Ermelino e Ponte Rasa

23/10/2010

Na  109ª SESSÃO SOLENE da Câmara Municipal realizada ontem, 22 de outubro, o morador de Ermelino Matarazzo discursou na comemoração do 20} Aniversário do MOVA – SP. Leia abaixo o discurso na íntegra:

“Meu nome é Francisco e sou morador de Ermelino Matarazzo.
Agradeço a oportunidade de estar nesta solenidade e parabenizo
os nobres Vereadores Eliseu Gabriel e Chico Macenapor terem tido essa feliz ideia de comemorar esses 20 anos de MOVA.
Parabenizo, também, a Câmara Municipal de São Paulo, porque
esta Casa tem uma certa cumplicidade com a história do
MOVA. Foi nesta Casa que houve o lançamento deste programa
de alfabetização. Em 1993, através de um decreto, houve a
extinção do MOVA e, em seu lugar, tentou-se lançar o programa
– que já nasceu falido – Proalfa. Depois de oito anos, o Proalfa
se apresentou com um número de 47 núcleos de alfabetização,
o que é algo absurdo.
Quer dizer, o MOVA foi extinto em 1993 através de um decreto
que criou o Proalfa. O MOVA tinha 1200 núcleos de alfabetização
e foi substituído, em tese, por um programa que tinha,
ao seu final, menos de 50 núcleos de alfabetização na cidade
de São Paulo.
Paralelamente a tudo isso, o MOVA continuou existindo sem o
mínimo apoio financeiro. Portanto, é justo que comemoremos
os 20 anos do MOVA.
Tive a oportunidade de participar, na terça-feira à noite, de
evento no CEU Curuçá, com estudantes, monitores e coordenadores
do MOVA na zona Leste. E, hoje tenho a informação
de que em todas as regiões da cidade estão ocorrendo grandes
eventos.
Em 1987 fui para zona Leste e, com um grupo de pessoas,
organizamos um movimento de alfabetização com o apoio da
fundação Educar.
Entretanto, por uma série de dificuldades – principalmente
financeiras – e pela falta de empenho governamental com
essa questão da alfabetização de jovens e adultos, aquele
movimento ficou, aproximadamente, por um ano em funcionamento
sem o mínino recurso financeiro. E o que dava uma
certa energia para nos mantermos ali naquela organização era
exatamente o fato de perceber que os alunos não queriam somente
aprender a ler e a escrever. Eles queriam participar, efetivamente,
das questões sociais; queriam se envolver; queriam ter
acesso à cidadania. A busca de um núcleo de alfabetização era
exatamente para viabilizar esta possibilidade. E os monitores,
ao sentirem essa energia, se mantinham por um bom tempo
trabalhando como voluntários.
Em 1989, quando Paulo Freire assumiu a Secretaria da Educação
– e aqui cito esse fato como algo que ficou marcado em
minha memória -, formamos um grupo de alfabetização da
zona Leste e fomos até a Secretaria da Educação. Naquele momento,
tive a oportunidade de conhecer Moacir Gadotti, Pedro
Pontual e Paulo Freire.
Paulo Freire era uma pessoa extraordinária dentro de sua
profunda humildade. Lembro que Paulo Freire disse: “Pedro
Pontual, venha conhecer esses meninos. Gostaria que você
conhecesse o trabalho desses meninos na zona Leste”. Naquela
ocasião, estávamos começando a participar de um projeto
maior que aquele movimento na zona Leste.
A partir de então, Pedro Pontual foi na região por diversas
vezes. O próprio Paulo Freire também foi muitas vezes a fim de
conhecer o trabalho de alfabetização, e sei que havia, na cidade
de São Paulo, muitas experiências semelhantes àquela da zona
Leste. E a Secretaria de Educação – e falo isso com bastante
tranquilidade – com todo o empenho envolveu-se nesse trabalho.
E o MOVA foi exatamente um processo, uma construção
entre a administração, os movimentos e essas experiências
sociais.
Enfim, foi um processo de construção. Lembro-me de um primeiro
encontro, no colégio Madre Cabrini, em que a Secretaria
de Educação ajudou a trazer, para um mesmo espaço, aquelas
experiências. A partir daquelas conversas, marcamos outros
encontros e, desses encontros, nasceu o Fórum Municipal de Alfabetização
de Adultos. Era um espaço dos movimentos sociais
que ali marcavam sua presença. Então, o MOVA nasceu dessa
conversa, dessa construção, desse processo.
Para não me alongar muito, direi que muitas coisas me marcam
no MOVA. A preocupação com a formação dos monitores.
Houve um empenho muito grande da Secretaria em desenvolver
um processo de formação inicial e permanente.
Hoje, sou professor da rede pública estadual e sou testemunha
de que a preocupação que há, nas redes oficiais de ensino,
quanto à formação continuada dos professores, dos educadores,
não é a mesma existente nesse movimento de alfabetização.
No MOVA as pessoas são abnegadas. As pessoas dão parte de
sua vida por acreditarem em uma causa, por acreditarem que
há uma possibilidade, sim, de resgatar a cidadania daqueles
que não tiveram oportunidade – por uma razão ou outra – de
se alfabetizar.
Então, comemorar os 20 anos do MOVA, para mim, é uma
grande satisfação, porque é um trabalho que tem dado certo. O
MOVA hoje se espalhou por todo Brasil. E é uma pena, é triste
a cidade de São Paulo ainda ter em torno de 600 mil pessoas
não alfabetizadas. E é triste saber, também, que aqueles que
administram as diversas esferas do poder não têm sensibilidade
política para esse fato social.
É preciso que se faça investimento na educação, principalmente
em projetos como este. Digo isto porque quem está envolvido
neste programa – é bom que se saiba – desenvolve um trabalho
que lida com a intimidade dos que estão envolvidos. Lida com
a intimidade dos alunos. Esses educadores conhecem a fundo
cada família do aluno que está presente no núcleo de alfabetização.
Conhecem o problema de cada um. Estão diretamente
envolvidos com essas questões e trabalham na perspectiva de
fazer com que os educandos superem a dura realidade.
Mencionei como é triste saber que o investimento financeiro
ainda é muito pequeno. É triste, por exemplo, saber que um
núcleo de alfabetização, na cidade de São Paulo, tem o custo
de 850 reais e ainda sofre o desconto de 5% de INSS. Esse é o
custo de uma sala de aula do MOVA, já incluídos os salários do
monitor e supervisor, o custo do material pedagógico, da água,
da luz e aluguel de espaço. As pessoas fazem rateio para que
essas salas funcionem.
Portanto, tenho uma felicidade muito grande de saber que esse
movimento, depois de 20 anos, ainda está trabalhando a pleno
vapor, tem pessoas valorosas, que tratam disso de forma muito
séria. Porém, fico triste porque as autoridades ainda não descobriram
que falta investir em projetos como esse, porque são
projetos dessa monta que apontam para um enfrentamento do
problema social do analfabetismo.
Concluo parabenizando, mais uma vez, todos. Esta sala poderia
estar muito cheia, porque, com certeza, o movimento a encheria.
Mas o movimento está muito bem representado.
Parabéns a todos
Comentários

VEJA TAMBÉM