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22/11/2010

O artista plástico Ricardo Cardos postou no Museu da Pessoa as seguintes lembranças de Ermelino Matarazzo:

Um córrego chamado Itapejica

Era uma criança de dois anos, que viera morar no bairro de Ermelino Matarazzo, na nascente do córrego Itapejica, de águas límpidas e com variedades de peixes.
Ermelino Matarazzo, um bairro na região leste da cidade de São Paulo e que fazia parte do bairro de São Miguel Paulista, onde havia a casa da moenda, um engenho, uma pousada de taipa, (Dom Pedro I parava para descansar e seguir viagem com destino ao Rio de Janeiro). Com a instalação da fábrica Celosul (fábrica de papel do grupo Matarazzo), à margem da ferrovia, surgiu a vila de casas dos operários, cinema, hotel, primeira escola (Condessa Filomena Matarazzo, uma construção em madeira), pedreira, chácara da família Matarazzo, um casarão com fama de ser assombrado e, no Jardim Berlim, uma fonte de água potável.
Córrego Itapejica, que tem seu leito paralelo à avenida Paranaguá e vai desaguar no rio Tietê.
A criança costumava brincar às margens do córrego, onde havia bambus, pássaros, borboletas e árvores…
A criança não tinha preocupações com o preço do feijão, se havia empregos e quantas vidas a ditadura estava destruindo. A criança: bola, carrinho, perna-de-pau, bolinha de gude, bandido e mocinho, zorro e Nacional Kid.
Chega o pré-primário, a mãe guarda o primeiro cartão do Dia das Mães.
Primeiro ano, professora Eunice Laureano da Silva. A criança está crescendo, quinta série, criou gosto pela arte, incentivada por uma professora de artes (Sandra). Em 1977, uma música lhe chama atenção “Pra não dizer que não falei das flores” (Caminhando), de Geraldo Vandré.
Casa da moenda foi ocupada e o engenho sumiu.
A pousada caiu, só restou “A Ruína de Taipa, tombada pelo Patrimônio Histórico”, porém abandonada à sorte.
A vila de casas quase sumiu.
O cinema foi derrubado, assim como o hotel.
A escola mudou-se de endereço, e hoje é de alvenaria.
A pedreira deu lugar a um banco.
A chácara ficou reduzida a uma casa.
O casarão transformou-se em uma área degradada, talvez ainda exista assombração.
Da fonte, nem água potável.
O Jardim Berlim virou Jardim Belém.
A ditadura acabou.
Acabaram também o bambu, os peixes e as borboletas.
A Professora Eunice Laureano da Silva, morreu em um acidente de carro, deram seu nome à escola.
Da professora de artes, só restaram lembranças.
Geraldo Vandré não canta mais.
A criança ficou adulta, as brincadeiras acabaram, hoje se preocupa com a desigualdade social e com o preço do feijão.
O Córrego Itapejica não existe mais, virou um esgoto chamado Córrego Mongaguá.
A criança e o córrego Itapejica estão nas lembranças do artista plástico.
Eu, Ricardo Cardoso.

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