11/08/2019

Manifestação de apoio ao Padre/reprodução

Conhecido líder comunitário na zona leste de São Paulo, o Padre Ticão estaria sofrendo ataques por meio de mensagens de ódio e ameaças de morte desde a realização da 36ª Semana da Juventude, organizada pelo grupo da comunidade Renovação Jovem da Paróquia São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo.

Durante a Semana da Juventude, no início de agosto, foram realizadas atividades como rodas de conversa sobre cannabis medicinal, conduzida pelo próprio Padre Ticão, e uma palestra sobre gênero, direitos sexuais, direitos reprodutivos e religião, com a participação da organização Católicas pelo Direito de Decidir.

Eventos sobre racismo, políticas públicas, juventudes, uma celebração ecumênica e uma romaria de jovens à Basílica de Nossa Senhora Aparecida também fizeram parte da programação. 

Segundo a organização feminista Católicas pelo Direito de Decidir, os ataques são feitos por grupos extremistas da própria Igreja Católica e direcionados ao padre, a integrantes da Paróquia São Francisco de Assis e aos jovens do grupo Renovação. A organização não citou os nomes dos grupos supostamente responsáveis pelas ameaças. 

“Provocada por quem não se propõe a exercitar o diálogo, a avalanche de violência tenta sufocar as vozes de uma comunidade de fé conhecida pela luta nas questões sociais”, diz nota de apoio ao Padre Ticão divulgada pela organização.

No site e nas redes sociais de grupos conservadores da igreja foram divulgados pedidos para que os seguidores denunciassem a participação das feministas no evento da Paróquia São Francisco de Assis. 

Um desses grupos é o apostolado Templário de Maria. No site e nas redes sociais do apostolado há uma publicação com o texto: “Urgente! Grupo de feministas pró-aborto estará na Semana da Juventude em uma paróquia de São Miguel Paulista”. Os leitores são estimulados a “denunciar” a participação. No site foram divulgados os telefones da Diocese de São Miguel Paulista, da Paróquia de São Francisco e do vigário da Paróquia. 

O apostolado Templário de Maria afirma ter sido fundado com o objetivo de propagar a “total consagração à Santíssima Virgem, bom como a sã doutrina da Santa Igreja Católica Apostólica Romana”. 

Outro grupo conservador, o Salve Roma, é mais radical. No dia 3 de agosto, publicou nas redes sociais um texto pedindo que os “hereges” fossem denunciados.

“A Paróquia de São Francisco de Assis promove evento onde feministas defenderam a legalização do aborto, contrariando o Magistério da Igreja e o Papa Francisco. O evento mostrou que os organizadores são hereges públicos e devem ser afastados pela Diocese de São Miguel Paulista por ‘FALTA GRAVE’. Um grupo de católicos, bravamente, defendeu a integridade da fé e o Magistério da Santa Igreja contra os rebeldes e desobedientes da paróquia”, diz a postagem. 

PADRE TICÃO

Padre Ticão foi um dos líderes da criação do Parque Dom Paulo Evaristo Arns e do Hospital de Ermelino Matarazzo, ambos na zona leste. Ele também participou da mobilização para a instalação da USP Leste e da Universidade Federal de São Paulo na zona leste. Na região, entre suas obras estão o Centro de Convivência para Melhor Idade e o Centro de Recuperação de Crianças Deficientes. 

O padre Ticão resolveu, então, denunciar as mensagens ofensivas e telefonemas anônimos que tem recebido com ao menos quatro B.O.s (Boletins de Ocorrência) no 62º DP (Distrito Policial), que está responsável pelas investigações. As ocorrências tratam de ameaça, injúria, difamação e falsidade ideológica, conforme explica à Ponte o advogado Eduardo Fonseca, que atua junto do padre.

“Um inquérito policial já foi solicitado para apuração do fatos praticados contra o Ticão e outros representantes da Igreja. A discordância faz parte da Democracia, mas não se pode tolerar a prática de ofensas, ameaças e tentativa de intimidação. Os fatos são graves e o Estado dará a justa resposta”, afirmou o defensor na tarde deste sábado, durante um ato em frente à paróquia.

Representante da FDEM (Frente Democrática de Ermelino Matarazzo), o cientista social Thiago Costa defendeu o pároco. ” Padre, assim como outras lideranças da comunidade, foi alvo de inúmeras ofensas e tentativa de intimidação. O fato é que o bairro de Ermelino, especialmente a FDEM, não vai tolerar nenhum ato criminoso em face da liberdade.
O bairro está com o Padre”, diz.

Em março deste ano, o padre provocou controvérsias ao criar na paróquia um curso sobre o uso medicinal da maconha em parceria com a Universidade Federal de São Paulo. “Não vou dizer que Deus é maconheiro, eu realmente não sei. Mas com certeza ele é cannabista”, disse em entrevista à Carta Capital. 

Ele defende o uso da cannabis para tratamentos médicos e afirma que ela só não é liberada no Brasil devido ao interesse de grandes grupos pelo monopólio. Segundo o padre, os moradores da região de sua paróquia demonstraram interesse pelo curso, principalmente porque a cannabis pode ajudar no tratamento de crianças com deficiências.

Fonte: Gaucha zh com informações da Folha e GGN

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