11/07/2017

DSC00156Do alto da colina de onde se pode ver o bairro de Ermelino Matarazzo e boa parte do extremo leste de São Paulo, habita um homem chamado Ticão. De estatura alta, Antonio Luiz Marchiori faz tanta coisa e para tanta gente que suas ações extrapolam a região e deixam difícil uma descrição simples sobre quem ele é. Mas sua liderança é marcante, assim como sua vontade de ajudar o povo. E é isso que ele faz há mais 40 anos. Ticão ajuda as pessoas fazendo escolas, arrumando empregos, ensinando saúde, elegendo políticos, praticando democracia, acolhendo trabalhadores, publicando jornais e, sobretudo, evangelizando. “O pessoal falava: esse padre aí não é padre, é político”, brinca o padre Ticão da comunidade católica de S. Francisco de Assis quando recebeu a revista Cidadanista para uma entrevista.

A multiplicidade de ações e resultados impressiona aos que imaginam uma igreja passível e com poucos fiéis. “Isso aqui é um vulcão” ao falar dos projetos como, por exemplo, o grupo de whatsapp com rede de oportunidades para desempregados ou os encontros sobre saúde preventiva onde distribui sementes da Moringa Oliefera, uma planta medicinal originária da África. “Nós queremos doar de 30 a 40 mil sementes até o final do ano”. Os jovens também têm atenção especial com um convênio firmado entre a igreja e o curso Poli da USP, onde professores dão aulas em uma escola pública do bairro. “Um problema grave aqui é da juventude, sem trabalho, sem estudo”. Completam o portfólio social cursos de manicure, “É o bairro que tem mais portinha de cabeleireiro. Sabe como é, em época de crise, é preciso autoestima”, cuidadores de idosos e doação de livros. “Nós entregamos cerca de 15 mil livros nos últimos 10 anos,” pontua orgulhoso padre Ticão, que em todas afirmações, não deixa de lembrar da importância da fé e do evangelho. Da escola de D. Angélico é adepto de uma igreja mais transformadora que conscientize o povo e o liberte. “A Igreja católica se dedica muito à devoção, mas tenho a esperança de que a Igreja precise dar um tom diferente, as pessoas precisariam se abrir mais, precisariam avançar mais”. Padre Ticão critica o excesso de mercantilização atual das comunidades. “A fé faz milagres, não negócios”, e acolhe movimentos políticos como o MCC, movimento de Mandatos Coletivos Comunitários, além de estimular candidaturas de líderes da comunidade. Nas últimas eleições municipais, três candidatos tentaram se eleger, mas perderam. “A gente está em um momento de baixa muito grande e não temos referências ou lideranças para entusiasmar o povo. Nós estamos em uma situação muito dramática”, afirma em tom de desânimo.

Mas o desalento com a política logo cede espaço ao ânimo em falar sobre uma das grandes vedetes da comunidade, a escola de Cidadania (com unidades aqui e em outros bairros). “Isso aqui virou um point. Porque a gente fez uma cantina e no começo tinha até cerveja”, sorri o padre. “A gente se reúne todas as sextas-feiras, de março a novembro, e no final do curso a Universidade Federal de São Paulo dá o certificado”. A próxima turma começou no último 3 de março e terá exigência de apresentação de trabalho de conclusão de curso e espera mobilizar 500 pessoas neste ano. A escola foi lançada há seis anos com o objetivo de debater a cidadania. “O povo começa a entender que cidadania é uma conquista, uma luta”. Na grade curricular, são convidados líderes, professores, cientistas políticos e o próprio poder público para fazer refletir os direitos e oportunidades das pessoas. Pe. Ticão adianta que um dos eixos temáticos do primeiro semestre será o Plano de Metas para a Periferia 2017-2020 e que vai discutir o direito pela cidade. “O mundo vai acabar em reunião”, brinca o sorridente padre Ticão na esperança de ver seu trabalho fazer nascer a consciência da política voltar a ter seu real significado na periferia, onde o poder deveria emanar do povo.

Fonte: Cidadanista/imagem: arquivo

Comentários