28/03/2014

No número 1.000 da avenida Arlindo Bettio, em Ermelino Matarazzo, a 23 km do centro de São Paulo, o grupo de pesquisa liderado pelo professor Marcelo Nolasco busca uma técnica eficiente para tratar o esgoto de forma descentralizada. Quando finalizado, o projeto também poderá ajudar a reaproveitar 80% da água eliminada nas residências. A equipe já recebeu convite para apresentar o trabalho nos EUA e também passou por Finlândia e China. Mas os experimentos para obter resultados, feitos na pequena estação experimental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) no campus da zona leste da Universidade de São Paulo (USP), estão paralisados.

É mais uma entre as dezenas de pesquisas da unidade que foram total ou parcialmente interrompidas desde 9 de janeiro, quando uma decisão judicial interditou o prédio da EACH por conta da contaminação do solo, tornando a área imprópria para circulação de alunos, professores e funcionários. No loca funcionou um aterro onde eram depositados sedimentos das dragagens do leito do rio Tietê. A USP anunciou a volta às aulas para a segunda-feira 31, em espaços cedidos ou alugados por outras instituições, mas ainda não há definição sobre o destino das pesquisas, embora os prejuízos sejam evidentes.

Miguel Garay, professor de gerontologia, teve de sacrificar 30 camundongos utilizados para pesquisas em biologia molecular celular quando deixou seu laboratório. “Alguns consegui transportar, mas não posso usar os equipamentos que estão lá. É perda de tempo e de prazos e ainda atrapalha a formação de cientistas”, desabafa Garay. Se forem somados os reagentes, produtos vencidos e outros materiais biológicos perdidos, o prejuízo alcança US$ 10 mil. Os docentes calculam que ultrapassam R$ 18 milhões os investimentos das agências de fomento à pesquisa na unidade. Garay conseguiu um “cantinho” emprestado em um laboratório de um colega, no campus do Butantã. “Compartilho um espaço que já é pequeno e faço 20% do que deveria”, conta. “Hoje tenho seis alunos dando um jeito, mas e no futuro? Até quando?”, questiona. O pesquisador cobra uma posição da USP que, segundo ele, não dá respostas sobre como vão agir em relação às pesquisas.

O improviso tem sido a única saída. Com defesa de tese marcada para agosto, a mestranda em saúde pública  Mariana Cardoso Chrispim fez adaptações na sua metodologia, como redução da frequência e do número de análises, além de alterar o material examinado, para conseguir cumprir o prazo. A professora de física experimental Adriana Tufaile, que tem quatro grandes projetos em andamento, contabiliza o prejuízo: “A paralisação pode deixar essas experiências obsoletas ou serem ultrapassadas por outros núcleos de pesquisa”, diz. Ela tem se reunido com um aluno bolsista em sua própria casa para não perder o cronograma. A diretora da EACH, Maria Cristina Toledo, afirmou por e-mail à ISTOÉ que a reitoria tem dado apoio aos cientistas “para solicitar adiamento de prazos ou mesmo modificações de pesquisas em vista das dificuldades impostas pela situação”.

Fonte: Isto É/imagem ilustrativa

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