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27/05/2008

Tamanha foi a pressa em erguer a “USP Leste”, perdendo de vista o necessário planejamento para, ao invés disso, atender aos interesses do governo estadual, que a Reitoria não levou na devida conta o histórico da área escolhida para a construção do novo campus, cuja principal característica era o grave passivo ambiental. Na época, a Reitoria teria ignorado até mesmo um documento enviado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, alertando para o óbvio: a área não se prestava a esta finalidade.

O resultado é que docentes, funcionários e estudantes juntaram-se aos moradores do vizinho Jardim Keralux no duro convívio diário com as emissões poluentes de diversas indústrias, atestadas por medições da Cetesb; com os riscos de desastre ambiental, uma vez que as fábricas do entorno lidam com substâncias altamente tóxicas e já houve acidentes graves (explosões), com o agravante de que não há rotas alternativas de fuga; e com águas subterrâneas contaminadas por metais pesados, como foi atestado por estudo contratado pela Cohab.

Docentes de vários cursos da EACH preocupados com a situação procuram, sem êxito, a colaboração dos órgãos ambientais: “Não estamos conseguindo dados nos órgãos públicos, como Cetesb, Coesf”, informa a professora Cristina Adams, do curso de Gestão Ambiental (GA). Cristina e outros docentes de GA pretendiam  trabalhar as questões ambientais da região como um estudo de caso, a ser conduzido pelos alunos: “Não conseguimos nenhuma abertura para fazer isso”, acrescenta ela.

“Laboratório”

Não custa lembrar que em 3/9/2004 a Agência USP publicou declaração de um dos membros da Comissão Central da USP Leste, professor Wanderley Messias dos Santos, de que “será finalizado até o final de 2004 o projeto de criação de um Centro de Pesquisas Integradas sobre Meio Ambiente Urbano – que será construído na Gleba 2. O principal foco de atuação do Centro será o estudo de problemas de contaminação no ar, no solo e na água, com abordagem multidisciplinar”.

Segundo a matéria, o “Centro de Pesquisas estará capacitado a identificar, caracterizar, classificar e avaliar os impactos ambientais urbanos e urbanos-industriais na região metropolitana de São Paulo e na Bacia do Alto Tietê. Também será um espaço voltado para o desenvolvimento de métodos e tecnologias para a recuperação ambiental”.

A matéria da Agência USP dizia, ainda, a propósito das glebas do campus leste: “Margeada pelo rio Tietê, a Gleba 2 tem problemas de contaminação de solo e de águas e o solo é mais instável. Além disso, o terreno faz divisa com o Jardim Keralux – um bairro extremamente carente da Zona Leste”. E acrescentava a seguinte frase do professor Costa: “A Gleba 2 é um ótimo laboratório a céu aberto.”

Como o campus foi erguido na Gleba 1, alegava-se que não havia motivo para preocupação.

Enxofre no ar

A comunidade da EACH queixa-se do odor de enxofre, principalmente à noite. O produto está associado às matérias-primas utilizadas pela Bann Química, empresa que produz insumos para a fabricação de pneus. A Bann instalou um filtro de enxofre em dezembro de 2005, o que reduziu as emissões mas não resolveu o problema.

Um estudo da Coordenação de Vigilância de Saúde (Covisa, órgão da Prefeitura) denominado “Monitoramento de Compostos do Enxofre Total Reduzido (ETR) – Jardim Keralux”, relativo ao período de dezembro de 2005 a dezembro de 2006 e baseado em dados da Cetesb, relacionou os diversos efeitos do enxofre sobre a saúde humana. Em ordem crescente de exposição, a substância provoca “percepção do odor e incômodo; dor de cabeça; náusea, vômitos; dificuldade respiratória; desequilíbrio motor; conjuntivite, irritação na garganta e no nariz, tosse; mal estar, nervosismo; efeitos neurocomportamentais” e “outros efeitos graves em exposições elevadas”.

O estudo, conduzido pela doutora em saúde pública Clarice Umbelino de Freitas e pelo engenheiro Carlos Karagüelian, concluiu que a “situação ambiental do Jardim Keralux é inadequada do ponto de vista de concentrações de compostos de ETR” e que é preciso “controlar as emissões a partir das várias fontes considerando o conjunto das empresas”. Solicitou a interdição da Bann pela Secretaria do Verde.

Água contaminada

Análises na água subterrânea, realizadas pela empresa Waterloo Ambiental a pedido da Cohab, identificaram a presença de alumínio, bário, cádmio e níquel em parte da área, e de manganês em toda a área do Jardim Keralux. O composto HCH (usado no inseticida BHC, removido da área pela Prefeitura em 1997), foi detectado em três poços de monitoramento localizados imediatamente a jusante do local onde houve a remoção dos resíduos.

O estudo concluiu não haver risco de câncer ou perigo de intoxicação para as populações de adultos e crianças moradores do Jardim Keralux, “considerando as vias de exposição ingestão acidental de solo, contato dermal com solo e inalação de ar interno e externo”. Também não identificou “nenhum tipo de risco iminente à saúde da população de moradores”.

Porém, advertiu: “em um cenário hipotético futuro, considerando que crianças e adultos moradores da área do Jardim Keralux passem a consumir água subterrânea do aqüífero livre, foi identificado risco de toxicidade e de câncer para ambas as populações”.

Sem rota de fuga

O relatório de 2006 “A EACH e a situação socioambiental do Jardim Keralux”, de autoria de um grupo interdisciplinar de docentes, sinaliza com clareza os perigos existentes: “Além disso, a única rota de entrada e saída do bairro é a Av. Arlindo Béttio, onde se localiza o portão principal de acesso à EACH, e por onde trafegam caminhões-tanque carregados com produtos químicos. Há uma enorme preocupação com relação ao fato de esta ser a única rota de fuga dos cerca de 8.000 moradores e 2.500 pessoas da comunidade USP, no caso de acidentes de maior gravidade na Bann Química (o risco de acidentes no local foi considerado grave pela Covisa), principalmente se levarmos em consideração a possibilidade de tal evento ocorrer no período de verão, quando os alagamentos na região são constantes”.

Em março de 2008, a EACH abriu uma entrada próximo à Rodovia Ayrton Senna, de modo que numa situação de emergência o próprio campus pode servir como rota de fuga, como admitiu o coordenador distrital da Defesa Civil na época, Geraldo Correa. "Estamos estudando uma rota de fuga. Hoje não existe, estamos lutando para que a gente consiga".

Fonte: Aduspnet informativo 259

 

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