22/07/2014

Moradora do distrito de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo (SP), a assistente de gestão de políticas públicas Sarita Goes dos Santos sonha com a possibilidade de ter um espaço adequado para expor os quadros pintados pelo pai. O acervo conta a história da região desde 1962.

As telas do artista Mateus Santos, que adotou o bairro após mudar de Estância (SE) para a capital paulista, estão guardadas no ateliê dele, mas a filha quer que as obras inspirem a produção artística da população local.

“Meu pai faleceu há cinco anos e desde então eu luto por um espaço aqui em Ermelino para dar continuidade ao trabalho dele. Os moradores pedem muito uma Casa de Cultura. Aqui tem gente muito boa, como artistas e cantores”, afirma. As manifestações artísticas na região são fáceis de serem encontradas. Em uma rápida visita pelo bairro, já é possível observar muros de casas e comércios, além de praças, decorados com grafites.

Um levantamento feito pelo G1 com base nos dados da Prefeitura de São Paulo mostra, no entanto, que algumas áreas periféricas da cidade praticamente não contam com equipamentos de cultura. Em Ermelino Matarazzo, há apenas um ponto listado: a biblioteca pública Rubens Borba Morais, onde Satira Goes trabalha. As regiões da Sé e de Pinheiros concentram mais da metade dos 1.570 pontos de cultura listados pela administração municipal.

O Ateliê Majosan, do artista Mateus Santos, está fechado, mas abriga cerca de 200 quadros pintados na técnica óleo sobre tela, sendo 32 específicos sobre a evolução do bairro.

O acervo tem atraído escolas públicas que procuram material sobre a história de Ermelino Matarazzo, mas Sarita tem recusado os convites por não ter estrutura para transportar o material e também pelo medo de danificá-lo.

“Eu comecei a ‘segurar’. Mas não é isso o que eu quero e o que meu pai queria. Ele era um homem do povo”, lamenta. A Subprefeitura de Ermelino Matarazzo, por meio da assessoria de imprensa, admite a carência de opções de cultura na região e informa que a maior parte dos eventos é organizada por coletivos, como encontros de poesia, música e saraus.

Sobre a criação da Casa de Cultura, a Secretaria Municipal de Cultura diz que o espaço será instalado na Avenida Paranaguá, onde funcionava a antiga sede da Subprefeitura e que estava fechado desde 1995. A previsão para o início das obras é a partir do segundo semestre de 2015, mas sem prazo de inauguração.

Estrutura e acervo
Único ponto listado como opção cultural em Ermelino Matarazzo pela Prefeitura de São Paulo, a biblioteca pública Rubens Borba Morais foi inaugurada em 1990 e está instalada em um prédio térreo na Rua Sampei Sato. O espaço possui acervo de 25 mil publicações, entre livros, gibis, mangás, jornais e revistas. Em junho, foram consultados 1.110 volumes e emprestados 768, aponta o relatório enviado à Prefeitura.

O recorde de movimentação na biblioteca em 2014 foi no mês de abril, com público de 1.306 pessoas e registro de 1.202 publicações consultadas e 933 emprestadas. A maior parte dos frequentadores do bairro tem ensino médio e faixa etária entre 30 e 59 anos, ainda de acordo com informações divulgadas pela administração municipal

O público tem à disposição um computador para fazer a consulta do acervo. A outra máquina estava quebrada e coberta com um plástico preto na quinta-feira (11), quando o G1 visitou o espaço. A sala de leitura também estava sem energia elétrica e os visitantes consultavam as publicações no escuro.

Segundo os funcionários, o problema ocorreu somente naquela área e um técnico havia sido chamado para checar a falha. Em nota, a Secretaria de Cultura afirma que a interrupção de energia foi um problema pontual do quadro de luz, já resolvido, e nega que exista um computador quebrado no local.

A aposentada Clarinda Franchetto levou a neta Helen, de 9 anos, e a amiga dela Camila, da mesma idade, para consultarem revistas sobre animais. Sem luz, as meninas se esforçavam para ler as publicações, mas pareciam não se importar com o escuro.

“A minha neta insiste em vir na biblioteca. Hoje, mesmo com chuva, ela me disse: ‘vó, quero ir lá e ler um bom livro’”, conta Clarinda.

Moradora de Ermelino há 50 anos, a aposentada reclama da falta de opções culturais no bairro. “Eu acho que devia ter mais espaço para arte, exposição, música. São poucos os lugares para levar as crianças”, diz. Ao ouvir a entrevista, a neta Helen não hesitou em registrar a sua queixa. “Falta muito um teatro e um lugar para brincadeiras”, completa a garota.

Atividades culturais e artísticas
Além das opções de leitura, a biblioteca pública Rubens Borba Morais oferece programação semestral gratuita de palestras sobre literatura cobrada nos vestibulares de universidades públicas, mediação de leitura de livros infantis, encontros de deficientes e oficina de quadrinhos e mangás (do programa Fanzines nas Zonas de Sampa).

Sem alternativas culturais, alguns jovens do bairro tentam “abraçar” as atividades oferecidas no local. “Para a gente ir ao cinema ou ao teatro tem que pagar muito, porque não tem nada aqui em Ermelino se você sai com os amigos, quer se divertir. Mas o dinheiro que a gente gastaria no passeio já vai tudo com transporte até o Centro, por exemplo”, relata a estudante Sara Lopes de Melo, de 17 anos.

Ela e o amigo Luan Mike Ferreira das Neves, de 16 anos, são alunos assíduos dos cursos oferecidos na biblioteca. Neste semestre, eles fizeram aulas de mangás, histórias em quadrinhos de origem japonesa. “Eu venho sempre fazer curso aqui, mesmo tendo que andar 30 minutos a pé da minha casa. É o único lugar que tem aula e de graça”, diz a adolescente.

Apesar de reconhecerem os fatores positivos da biblioteca, os jovens reclamam da falta de computadores com acesso à internet. “A retirada do telecentro da biblioteca me prejudicou muito. Eu fazia curso de informática e de digitação. Dava para fazer trabalho da escola, mas como parou [o curso], tive que comprar computador e impressora, mas ainda falta a internet”, conta Sara.

A professora do curso de mangás, Simone Fukue, participa do projeto Fanzines nas Zonas de Sampa desde 2011 e frequentou diferentes bairros da capital paulista, mas identificou um perfil artístico diferenciado nos alunos de Ermelino Matarazzo. “Eles falam muito dos cursos que já fizeram e a gente percebe que eles têm interesse. Eles se assemelham ao que encontrei na periferia de Curitiba (PR)”, compara.

‘Bairro-dormitório’
De acordo com informações da Subprefeitura de Ermelino Matarazzo, o distrito possui 113.615 habitantes em uma área de 8,7 quilômetros quadrados. A região começou a se desenvolver na década de 1920, com a chegada da ferrovia e com a construção da estação ferroviária Comendador Ermelino Matarazzo. Por oferecer terrenos mais baratos, e sem infraestrutura, passou a receber grande volume de trabalhadores, principalmente de origem nordestina e se transformou em um bairro predominantemente residencial.

A principal carência da região, segundo a Subprefeitura, é a de empregos: 97% da população não trabalha no distrito, o que faz com que haja grande necessidade de locomoção por parte desses trabalhadores e deem ao local o aspecto de “bairro-dormitório”. A área é cortada pela linha 12 da CPTM e possui duas estações (USP Leste e Comendador Ermelino).

Fonte: G1

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