02/02/2014

Para usar clubes da comunidade (CDCs) da Prefeitura de São Paulo, jovens da periferia pagam mensalidades de até R$ 86. Quem recebe o dinheiro são patronos de times de futebol de várzea que mandam e desmandam em espaços públicos. Em regiões carentes e sem opções de lazer, esses times transformaram clubes reformados recentemente pelo governo em franquias de escolinhas do Corinthians e do Santos. Alguns têm bares com shows de pagode nos fins de semana. Só entra quem pode pagar.

Pela primeira vez em três décadas, o governo municipal quer reassumir os CDCs e transformar alguns deles em “rolezódromos” para jovens e adolescentes realizarem bailes funk. Ao todo, são 298 clubes da comunidade na capital. Em pelo menos sete deles, o governo de Fernando Haddad (PT) quer colocar iluminação e permitir os “rolezinhos” que jovens passaram a fazer em parques e shoppings desde dezembro.

A tarefa não vai ser fácil. O atual modelo de gestão em vigor desde 1980 não tem quase nenhuma supervisão da Prefeitura e, para acentuar o problema, há brechas legais que permitem a exploração dos espaços.

 

Nos últimos cinco anos, as entidades que comandam os CDCs receberam, com a ajuda de emendas de vereadores, grama sintética paga pela Prefeitura – o custo médio para um terrão ganhar a grama é de R$ 180 mil. A Prefeitura já gastou mais de R$ 5 milhões para aplicar a grama sintética e construir vestiários nos CDCs desde 2008. Só que, após as reformas, os clubes continuaram geridos por associações e sem nenhum tipo de fiscalização. Parte deles passou a funcionar como empresas que alugam campos de futebol society, com bar, campeonatos fechados, shows de samba e churrasco.

Outro meio que os times de várzea encontraram para lucrar com clubes do governo foi transformá-los em franquias de escolinhas dos times grandes.

 

O CDC Ermelino Matarazzo virou franquia do projeto Meninos da Vila, do Santos. Quem recebe as mensalidades de R$ 86 de 200 alunos, a maior parte moradores da região, são os coordenadores do time Veronia Esporte Clube. Em janeiro, os alunos precisaram pagar duas mensalidades adiantadas. O clube tem quatro piscinas vazias há 15 anos, segundo vizinhos.

O secretário municipal de Esportes, Celso Jatene, admite que os clubes de comunidade estão dominados por times de futebol de várzea. Ele disse que a partir de segunda-feira o governo vai fazer um pente-fino na documentação dos 298 CDCs, mas somente uma legislação poderá mudar a gestão dos espaços.

“Queremos pedir à Câmara uma comissão de estudos para montar uma nova lei de funcionamento dos CDCs, com responsabilidades e deveres para quem assume a gestão”, afirmou Jatene. Ele, porém, disse que não quer retirar de vez os clubes de várzea. “Precisamos criar metas para serem cumpridas por quem está nesses clubes”, afirmou.

Não é a primeira vez que a Prefeitura tenta reassumir a gestão dos CDCs. Em abril de 2007, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) baixou o Decreto 48.267 determinando que a pasta de Esportes assumisse a fiscalização e supervisão dos CDCs.

 

A norma dizia que as atividades do programa Clube-Escola, como aulas de tênis e ioga para terceira idade, deveriam ser implementadas nos CDCs. Passados sete anos, a regra está longe de ser cumprida. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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