23/04/2019

Na semana passada a CBN mostrou que o secretário da Casa Civil da prefeitura de São Paulo, João Jorge, destinou R$ 1 milhão em emendas para a Associação Jovens do Brasil no ano passado. Os eventos culturais foram superfaturados com notas frias, serviços fictícios e empresas de fachada. Metade do dinheiro foi repassado a duas fornecedoras que pertencem aos próprios dirigentes da associação: a Aioká e o Grupo Jovens do Brasil.

Agora, a reportagem obteve novos documentos que mostram que João Jorge também repassou dinheiro diretamente à Aioká. A produtora recebeu quase R$ 700 mil para organizar sete eventos entre o final de 2017 e 2018.

Os recursos vieram da Secretaria de Cultura e também das subprefeituras de Ermelino Matarazzo e da Penha, ambas comandadas por aliados de João Jorge. A maioria dos eventos não tem prestação de contas detalhada, nem fotos das atividades, como é exigido. Alguns nem sequer têm nota fiscal.

Conforme a CBN mostrou na semana passada, nos eventos em que a Jovens do Brasil recebeu a emenda, a Aioká aparece como maior contratada, fornecendo palcos, equipamentos de som, banheiros, seguranças, bombeiros, entre outros. Agora, quando a própria Aioká recebe a emenda, o papel se inverte: é a Jovens do Brasil, uma entidade sem fins lucrativos, que surge como fornecedora desses itens.

Nos eventos “1º Festival de Verão” e “1ª Festa dos Estados” a situação é ainda mais inusitada. A Aioká emitiu várias notas em nome dela própria. Ou seja, a mesma empresa aparece como contratante e contratada.

Na maioria dos casos a Aioká precisou fazer apenas uma nota fiscal, no valor total do evento. É o caso do “Aniversário do Distrito de Ponte Rasa”, que custou R$ 150 mil, e do “Mulheres que Encantam”, a um custo de R$ 250 mil. O dinheiro saiu da subprefeitura de Ermelino Matarazzo. As duas atividades foram aprovadas a toque de caixa, em meio às festas de fim de ano.

Nesses eventos, a produtora faz um contrato de exclusividade com os artistas e ela própria emite a nota. No termo de exclusividade, a Aioká obriga os artistas a “não pleitear à prefeitura a cobrança de quaisquer valores eventualmente não repassados.”

CACHÊS

Chama a atenção os valores dos cachês: no evento “Mulheres que Encantam”, a principal atração foi a cantora Paula Lima. Reconhecida no cenário musical, ela recebeu R$ 35 mil reais de cachê. Dois grupos desconhecidos, ligados à ONG envolvida no esquema, receberam praticamente o dobro: o Coletivo Cenário Urbano e Grupo Aldeia Satélite ganharam R$ 55 mil e R$ 60 mil reais cada, por uma única a apresentação.

Em vários eventos a banda Vitrola SP foi contratada, recebendo cachê de R$ 30 mil reais. Detalhe: essa banda pertence a Thiago Gamarra, um dos donos da Aioká

Nesses dois eventos citados a Aioká não gastou nada com infraestrutura e mão-de-obra. A SP Turis, entidade subordinada à Secretaria do Turismo, forneceu tudo, sem cobrar nada. A secretaria é comandada por Orlando Faria, aliado de João Jorge. Os custos dessa operação da SP Turis foram bancados pela Casa Civil, justamente a pasta de João Jorge.

Outro evento foi a “Feira Literária de Ermelino”, realizada numa escola municipal. A feira custou R$ 70 mil e teve apenas uma exposição com três esculturas de madeira, uma banca de doação de livros e uma exposição de fotos. O “Natal Itinerante” custou R$ 60 mil reais. Durante três horas, um grupo de dez pessoas fez um cortejo usando roupas natalinas. E nada mais.

A reportagem telefonou para João Jorge e para Priscila Gamarra, presidente da Aioká, mas nenhum deles atendeu às ligações. Em nota, Priscila afirmou que a Aioká é uma empresa idônea e que todos os eventos citados foram realizados com aprovação da subprefeitura e da secretaria de Cultura, com acompanhamento de fiscais desses órgãos.

Na semana passada, João Jorge afirmou que não cometeu irregularidades com as emendas e negou que o dinheiro tenha retornado de alguma forma a ele. Até a semana retrasada ele era o presidente municipal do PSDB. Agora, foi escolhido para ser o tesoureiro do partido. João Jorge será o responsável pela arrecadação do PSDB nas eleições do ano que vem.

Segundo a prefeitura, o prefeito Bruno Covas pediu a suspensão dos pagamentos às entidades citadas e determinou a abertura de um inquérito na Controladoria-Geral do Município.

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Fonte: CBN/imagens: rede social

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