16/04/2019

Segundo a Rádio CBN, o maior evento foi o “1º de Maio de Ermelino Matarazzo”, que custou R$ 300 mil. A Associação Jovens do Brasil informou a compra de uma quantidade espantosa de tinta para uma ação de grafite: 500 latas de spray por R$ 10 mil, ou seja, R$ 20.

Grafiteiros ouvidos pela reportagem disseram que um grafite consome uma lata por 1,5 metro quadrado. Ou seja, a quantidade permitiria grafitar uma parede com 4 metros de altura por quase 200 metros de comprimento. O muro grafitado tem 4 metros de altura, mas menos de 40 metros de comprimento, um quinto do que deveria ter.

A CBN esteve na loja que emitiu as notas dos sprays e constatou: o custo da lata é de R$ 10,90, metade do que foi informado pela Jovens do Brasil nas notas.

– Ó, dá pra cair pra R$ 10,90

– R$ 10,90? Se for pegar 400 latas?

– Isso.

– E daí você conseguiria…

– Para amanhã, eu acho

Ainda no 1º de Maio, a ONG declarou que organizou uma corrida de rua e comprou duas mil medalhas, por R$ 6 mil , e dois mil kits-lanche, por R$ 20 mil. A corrida foi realizada, mas a organização foi toda feita pela Secretaria dos Esportes, com patrocínio da Caixa. Ou seja, a ONG não gastou nada e mesmo assim recebeu R$ 26 mil. A nota foi emitida em nome do Grupo Jovens do Brasil.

Mesmo com as irregularidades, a Secretaria de Cultura aprovou a prestação de contas. A pasta também aprovou a prestação do Music Rock Show, apesar de servidores terem apontado irregularidades. As prestações dos outros oito eventos não foram apreciadas.

Desvios ocorreram também no cachê dos artistas. A reportagem entrou em contato com Priscila Gamarra, da Aioká e da Associação Jovens do Brasil, se passando por um produtor. Sem saber que estava sendo gravada, ela pediu que fosse enviada uma proposta com ou sem nota. Na segunda opção, os organizadores embolsam até 20% do valor do cachê.

– São dois valores. Com nota colocada ou sem nota. (Priscila)

– Se for sem nota, a nota vai por quem? Por que precisa ter uma nota, né?

– Pela minha produtora. Daí eu desconto de 18 a 20%. (Priscila)

– Mas isso não pode dar problema com a secretaria?

– Não, porque é direto com eles. O contato com a produtora é direto com eles. (Priscila)

Em alguns eventos a ONG contratou a banda de Thiago Gamarra, marido da Priscila.

Em nenhum evento houve pesquisa de preço com ao menos três fornecedores, como manda a lei. Em cinco eventos a ONG não enviou qualquer foto das atividades, o que também é obrigatório.

No Arco-Íris de Ermelino, a associação gastou quase R$ 15 mil com locação de bateria, palco e amplificadores, As fotos mostram que só foram alugados uma tenda e cadeiras de plástico. O público estimado era de mil pessoas, mas menos de 50 compareceram.

Os gastos com buffet de camarim nos eventos foi de R$ 5 mil por dia. Dois buffets consultados pela CBN informaram que o custo para um evento desse não passa de R$ 1 mil. As fotos mostram sanduíches de metro e salgadinhos.

A ONG declarou ter imprimido dez mil panfletos e dois mil cartazes para atividades que reuniram apenas dezenas de pessoas. Em nenhum dos casos há fotos do material impresso, dos banheiros químicos, dos kits-lanche, das medalhas, entre outros produtos.

A terceira maior fornecedora da ONG foi a Prospect JL, uma dedetizadora que forneceu seguranças, bombeiros, palcos, sonorização, iluminação, entre outros, sem ter autorização pra isso. Sem saber que estava sendo gravado, o dono da Prospect disse que terceiriza vários serviços, mas usa só uma nota para pagar menos impostos.

– Algumas coisas aqui eu tenho e uma outra parte eu terceirizo. Em vez de fazer nota de gerador, palco, banheiro químico, faz uma nota só e paga um único imposto. (dono da Prospect)

– Mas tem gente que só precisa da nota

– Tem, tem casos que precisa só da nota. (dono da Prospect)

– Você vai fazer pela prefeitura? (dono da Prospect)

– Isso.

– Ah, então, a gente faz. A gente já faz serviço de nota pra prefeitura. Você trabalha com eventos, como é? (dono da Prospect)

– Isso, eu trabalho com eventos, estou começando agora e eu pesquisando preços.

– Aí tem que ser conversado mais particularmente porque tem uma forma que a gente faz, dependendo do valor, do serviço, como é que a gente pode cobrar… Várias formas, né? (dono da Prospect)

– Entendi

– Aí tem que ser assunto mais no particular. (dono da Prospect)

Geradores foram alugados por R$ 3 mil, mais que o triplo do valor da tabela de referência prefeitura. Os serviços de iluminação custaram sete vezes mais que o valor de referência; o aluguel do palco, R$ 12 mil, custou quatro vezes mais.

No “Arraiá de Ermelino”, a Aioká informou gastos de R$ 9 mil com decoração, mas as fotos mostram só bandeirinhas juninas penduradas.

Em vários casos a ONG diz ter gastado R$ 13 mil com jornalistas e assessoria de imprensa para um dia de evento, valor muito acima do praticado. As atividades, no entanto, não tiveram repercussão na mídia. Também foram declaradas despesas com confecção de site, mas nenhum evento tem página na web.

Procurada, a ONG negou irregularidades e afirmou que a Secretaria de Cultura fiscalizou as atividades. Já o secretário da Casa Civil disse desconhecer a entidade e que agora vai averiguar os eventos que bancou. O prefeito Bruno Covas determinou a abertura de inquérito na Controladoria-Geral do Município.

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