16/09/2007

Os moradores de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo, vêm experimentando, ao menos por algumas horas da tarde nos últimos dias, a sensação de viver em deserto, daqueles secos, quentes e áridos. O bairro tem registrado os mais baixos índices de umidade relativa do ar entre todas as regiões da Capital neste longo período de estiagem, comum no inverno.

Em 12 de setembro, exatamente às 14h15, Ermelino Matarazzo teve apenas 12% – índice comparável a dos locais mais secos e áridos – de umidade relativa do ar. Nestas condições, para se ter uma idéia, é recomendado interromper qualquer atividade ao ar livre entre 10h e 16h e não ficar em aglomerações em locais fechados.

As altas temperaturas resgistradas neste inverno, com máximas de até 31°C, e a longa estiagem neste mês de setembro colaboram ainda mais para a sensação de clima de deserto no bairro paulistano.

Segundo medições do Instituto Nacional de Metereologia (INMET), até o dia 12 de setembro houve o registro de apenas 14,6mm de precipitação, quando a média histórica para o mês é de 78mm em toda a região metropolitana da Capital. Como estas chuvas foram dispersas pela cidade – em alguns pontos choveu mais e em outros, menos -, isso significa que Ermelino Matarazzo pode ter registrado índice de quantidade pluviométrica ainda mais baixo.

Nos desertos mais secos e áridos, as médias anuais de precipitação variam de 100 mm a 250 mm. Desta forma, as médias mensais em um deserto podem oscilar entre 8,3 mm a 20,83 mm de chuvas. Ou seja, se não chover até o final do mês, Ermelino Matarazzo pode registrar um dos meses mais secos de sua história, com uma quantidade de chuva comparável a de um verdadeiro deserto.

Mas vários motivos colaboram para os habitantes do bairro se sentirem vivendo literalmente dentro de uma estufa. Ao percorrer as ruas próximas ao centro, é impossível não se sentir sufocado, com uma verdadeira sensação de claustrofobia por causa do forte calor e da falta de vento.

Assim como em um verdadeiro deserto, refúgios e áreas verdes praticamente inexistem no bairro. A principal diferença é que no lugar de areia e rochas, comuns em áreas desérticas, as pessoas se deparam com muito asfalto, muito concreto, tijolos, chaminés, caminhões, ônibus e, claro, muita poluição.

As raras praças nas proximidades da região central do bairro contam com poucas árvores, a maioria com as folhas secas neste fim de inverno. Como resultado, ficam vazias durante todo o dia. As pessoas, quando caminham pelas ruas, refugiam-se nas sombras de casas, prédios e de estabelecimentos comerciais. Desta forma, a maioria anda quase sempre do mesmo lado das ruas ou avenidas. E o jeito é apelar para sombrinhas, chapéus, bonés e abanadores, para tentar, em vão, dar uma refrescada.

Para piorar, a falta de chuva e a impermeabilização do solo contribuem para a má qualidade do ar na região. Nestas condições, é comum ocorrerem problemas respiratórios, por causa do ressecamento das mucosas, que pode provocar até sangramento pelo nariz. As complicações de saúde não param por aí – o ar seco provoca também ressecamento da pele e irritação dos olhos. E quem mais sofre, obviamente, são as crianças.

O G1 conversou com vários moradores de Ermelino Matarazzo na quarta-feira (12) e a maioria – houve uma exceção – relatou algum tipo de problema de saúde ou incômodo por causa do tempo seco.

Os sintomas são sentidos logo após acordar, pela manhã. “Levanto quase todo dia com a cabeça pesada, espirrando. Já tive que ir para o hospital, por falta de ar. Tenho renite alérgica e precisei fazer inalação”, reclamou Leci Pereira Dias, enquanto batia papo com as amigas ao lado de uma barraca de roupas – montada na sombra, claro.

Para espantar o calor, muita água, suco e sorvete. Eliana Paula Rocha, que tem uma máquina de sorvete de massa na principal avenida do bairro, chega a vender 200 casquinhas por dia, contra 50, em média, em outras épocas do ano. Mas ela também tem motivos para reclamar do tempo. “Já teve noite que precisei botar uma bacia de água no quarto para poder dormir”, contou.

Todos os moradores têm uma certeza em comum sobre o principal motivo para o bairro apresentar índices tão baixos de umidade relativa do ar. “Deve ser por falta de natureza. Falta área verde aqui no bairro. E tem o trânsito, muita poluição”, apontou a cabeleireira Elaine Máximo.

Fonte: G1

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