10/02/2011
Começa amanhã (11/02) o “1º Festival de Cinema da Zona Leste no CEU QUINTA DO SOL e a abertura será com o filme “Ermelino é luz”. Saiba mais sobre ele no texto abaixo reproduzido do catálogo do Festival:
Ermelino Matarazzo, a poética cotidiana de um bairro cuja história de autoconstrução e mobilização contribui para ofortalecimento da luta pelo direito à moradia em todo Brasil.O filme é resultado do projeto contemplado no II Edital História dos bairros da cidade de São Paulo. O processo derealização do documentário deu origem ao festival SP LESTE EM MOVIMENTO.

É diferente o conceito de um realizador que se propõe a reproduzir a realidade, ao conceito de um documentarista que se põe frente à realidade e procura sincronizar-se a ela. Por isso a realização da Oficina de Vídeo Documentário, chamada por nós de Laboratório Documental de Construção da Poética Cotidiana, que aconteceu na Associação Cultural Poder Negro entre os meses de setembro e novembro de 2008 foi fundamental para me relacionar com os moradores e conhecer o cotidiano do bairro de Ermelino Matarazzo. Realizar a oficina significou conhecer o bairro em sua expressão verdadeira, a qual muitas vezes permanece oculta por números e estatísticas.
Assim, o roteiro de gravação do documentário surgiu a partir da relação humana que tivemos com o grupo de alunos, que nos traziam histórias, sugeriam potenciais personagens e relatavam fatos cotidianos através de exercícios escritos e de conversas.
Nos interessava conhecer seus sonhos e anseios, suas lutas, suas conquistas, as dificuldades do cotidiano, as belezas artísticas, os feitos memoráveis. Queríamos conhecer o olhar destas pessoas sobre seu próprio bairro. Quais signos e lugares do bairro lhe trazem recordações, emoções, alegrias? O que eles olham? Por que? O que impressiona? O que incomoda e o que agrada? Tais são as imagens que compõem Ermelino É Luz.
Por isso, dentro da estética realista proposta no documentário, articulamos os planos subjetivos, aqueles que buscam o olhar do protagonista da ação. Como dizia o cineasta Fernando Birri (1) a câmera à altura dos olhos – tanto para registrar em primeiro plano, como para plano geral – significa incorporar de fato a filosofia realista. O plano objetivo e neutro é usado estrategicamente, em poucos e precisos momentos de forma a possibilitar que o espectador visualize o todo da ação e entenda qual a posição e o movimento dos protagonistas. Os planos, porém, não acontecem de forma isolada, mas são conectados
dentro de uma mesma ação. Ermelino É Luz conta também com técnica de sincronização de sentidos em montagem discursiva (2), xtravasando assim a objetividade textual em um filme que talvez esteja mais próximo de um “não-ficção” do que de um documentário”. Porém, sem abrir mão da reflexão humana e de sua capacidade de elaboração textual através de depoimentos de moradores, artistas e estudiosos do bairro. A montagem não ilustra de forma pontual aquilo que o depoimento nos conta, mas atua como arte que irá revelar e provocar novas formas de compreensão e apreciação da realidade. A sincronização de sentidos significa que há em um mesmo momento do filme diferentes camadas de informação articuladas, o que permite ao espectador apreciar de diferentes maneiras a obra. Por exemplo, na Sequência IV, durante o depoimento de Dona Neuza sobre a importância da organização comunitária para as conquistas sociais na região observamos:
• O áudio do depoimento de D. Neuza muitas vezes acompanhado da imagem sincronizada deste depoimento.
• A montagem mistura sobre este depoimento imagens de arquivo histórico do filme Há Lugar, de Julio Wainer, que retratam a ocupação de terrenos para a moradia popular na região.
• A montagem mistura inda imagens do Núcleo de Reciclagem de Vidro da Associação Cultural Poder Negro. Garrafas sujas de pinga, cerveja e refrigerante são transformadas em belas obras de arte.
• Execução instrumental da trilha sonora original do filme, a musica Adoniran É Luz, pelo grupo O Samba Que A Gente Faz, apenas com pandeiro, bandolim de Luciano Machado e um pouco de rebolo. Os demais instrumentos aparecem apenas no início e ao final da
seqüência, mas nesse momento a música é outra: improvisação instrumental pelo grupo Mi Menor.

• Som ambiente da oficina de reciclagem de vidro Cada um destes itens, exceto o último citado, contam por si próprios uma pequena história, e, articuladas criam um novo sentido. Essa técnica de montagem acorre ao transcorrer de todo filme desenhando assim sua identidade estética final. Outra característica do filme é que todo material que o compõe é oriundo de Ermelino Matarazzo. Todas as imagens filmadas são do bairro. Toda a trilha sonora foi gravada no bairro, por moradores do bairro. Todos os depoimentos são de moradores do bairro. Apenas o material de arquivo histórico mistura imagens da região, e tem cenas em São Miguel Paulista, o bairro vizinho.

(1) Fernando Birri: um dos pais do novo cinema latinoamericano, fundador da histórica Escola Latino-Americana de Documentários de Santa Fé – ARG, em 1956 e da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba.
(2) A Montagem Discursiva é aquela cujo os cortes e sincronização de sentidos estabelece o fluxo de informações e a estética do filme, que se faz
preponderante principalmente através da montagem, e não do fluxo interno das imagens. A partir dos conceitos refletidos por Vicent Amiel em seu livro Estética Del Montaje, Abada editores

ERMELINO É LUZ – teaser from SP Leste em Movimento on Vimeo.

Para maiores informações sobre a programação acesse :
http://festcinespleste.com.br/site/

Comentários

VEJA TAMBÉM