29/12/2011

“E aí gente, gostaram do moleque novo?”, pergunta o presidente do XI Garotos para a torcida no alambrado. Com a aprovação entusiasmada dos torcedores, ele ordena: “Valdir, já pega o RG e duas fotos dele, o cara vai jogar pra nóis na Copa Kaiser do ano que vem”. O moleque é Rodriguinho, que pediu para ser testado naquele dia. A cobrança vem de todos os lados. Um grita: “Não podemos perder esse ano”; do outro lado, uma pessoa fala: “Mais um ano na fila, não”. Essa cena sintetiza a relação do time XI Garotos com a comunidade que lhe abriga.

Encostado no banco de reservas está um homem de 47 anos, agitado e sempre requisitado, com seu copo de cerveja na mão e o olhar fixo no campo. Não há uma só pessoa que entre pelo portão do CDC do Areião, em Ermelino Matarazzo, zona Leste de São Paulo, que não estenda a mão para cumprimentá-lo. Ele é Bill, e a camisa do XI Garotos lhe cai bem. Aliás, para quem estiver desavisado por ali, pode parecer que ele é mais um boleiro na beira do campo, esperando sua vez para entrar em campo, mas é o presidente do time. Apesar da chuteira, o shorts e o comportamento marrento, para usar um linguajar de boleiro, Bill nunca atuou pelo XI.

Aos 15 anos, ele perdeu a mãe; quando completou 18, perdeu o pai. A herança que lhe deixaram foram alguns imóveis e um time de várzea, o 5 Estrelas. Imediatamente, a pedido de um amigo, trocou o nome do time para XI Garotos, as cores amarela e preta foram mantidas e o símbolo do time foi escolhido. Nascia ali o Tigre da Leste, era dia 7 de setembro de 1982.

É comum na várzea que cada bairro tenha mais de um time, em Ermelino, são muitos. Segundo Niko, diretor do XI e professor da escola de futebol do CDC do Areião, sede do time, “só aqui no CDC devemos abrigar uns 14 times da região”. Para impor respeito em meio a tantos concorrentes, Bill precisou ser enérgico. “Tinha uns times melhores no bairro e o nosso só tinha menino, não queriam deixar a gente entrar em um campeonato. Para jogar o nosso primeiro, que foi o 1º de maio, um campeonato importante aqui na quebrada, eu tive que jogar uma mesa nos caras, durante a reunião”, explicou.

Bill é corintiano, mas gosta de dizer que “antes de tudo sou onzegarotiano. “Entre o Timão e o XI, fico com o XI sempre.” Teve cinco filhos, frutos de três casamentos, é avô de cinco crianças e se frustra ao contar que nenhum dos filhos quer ser dirigente do time da família, que se tornou um símbolo em Ermelino. Durante uma caminhada pelo bairro, pode-se encontrar gente como o Ninja, que acompanha o time há vinte anos e hoje é o responsável pela Garoterror, torcida organizada do Tigre. “Eu nunca dei certo como jogador, mas esse time é demais, cara. É minha alegria,vi várias pessoas de 2001, quando ganhamos a Copa, que hoje são grandes amigos, me deu uma família. A comunidade ama esse time porque quem vem aqui vê essa torcida cantando apaixonada e o XI devolve tudo isso pra gente.”

O jogo do presidente

Antes do cronômetro disparar e o jogo começar, o capitão BA (Beá) pede a palavra na rodinha, formada no centro do campo. “Estamos entrando em campo como um time consagrado. O que é isso gente? Não estamos jogando nada. Estamos muito abaixo do que essa comunidade espera da gente. Estamos jogando em nossa casa e dentro de casa já sabe com é, tem que ganhar mesmo, vamos começar ganhando aqui, agora na reza”. Começa oPai nosso, gritam como se pudessem garantir que a vitória viria se os céus pudessem escutar a sua reza. BA está preocupado. “É, o jogo de hoje é muito importante, as pessoas vieram aqui nos ver e querem a vitória.” Com menos de 1 minuto, um carrinho violento no meio do campo. Tudo isso acontecendo e o jogo é apenas um amistoso, uma partida contra o Miolo da Vila Esperança. A partida só vale por um motivo, explicado por um dos diretores do XI, Valdirzão. “Perder aqui, nunca. Esse é o time da quebrada e na quebrada ele tem que ganhar.”

Bill parece outra pessoa, o homem sorridente e sereno das entrevistas que tivemos, agora é um angustiado torcedor em seu lugar tradicional. O copo de cerveja continua na mão, em vários momentos, esvaziado por movimentos bruscos do presidente. Ele grita com o time o tempo inteiro. “O que vocês estão fazendo aí atrás? Eu quero esse time na frente. Joga direito”. Seu time segue acuado, o Miolo não ataca com contundência, mas não deixa o XI jogar. A tática parece ser simples, ganhar pela virilidade. O Tigre é muito mais time, mas sofre do que BA já temia antes do jogo, a “soberba”. O camisa 7 do Miolo rouba a bola, finge que vai tocar, mas arrisca para o gol. A bola passa perto. De sua área reservada, Bill sussurra: “Meu Deus”. Obaluaê é o santo de proteção desse paulista, que se diz muito mais católico. Sua popularidade na comunidade é um dos seus orgulhos, mas preocupa o presidente. “Tem 4 favelas aqui, ser um cara popular é complicado, já passei por cada uma. Se você fica mais amigo de um, o outro cobra, todo mundo quer chegar perto. ”

 

Com 15 minutos de jogo, Valdir, o camisa 9, abre o placar para o XI. Bill não estava olhando para o campo, um morador da região e torcedor do time havia lhe chamado para conversar. Nada o irrita mais do que ser distraído na hora do jogo. “Quando o XI joga, eu me transformo, entro no campo e faço cada bobagem… Me dá um troço. Eu paro ali no meu cantinho para ver o jogo e começa esse negócio de ‘Bill, vem ver isso’, ‘Bill, olha aquilo’, ah eu fico puto.”

Na virada para o 2º tempo, Niko, seu braço direito, fala sobre a relação com o patrono da equipe. “Cara, onde o XI vai é diferente, isso se deve um pouco ao carisma do Bill. Em todos os amistosos que jogamos, o time que vai nos enfrentar ganha um troféu. O Bill é uma pessoa por quem tenho um carinho enorme, ele é meio estourado, mas sabemos conduzir bem. É um cara querido e importante para o bairro, quem é XI, é Bill.” Para Niko, a importância do time vai além das 4 linhas que demarcam o campo de jogo. “Temos uma preocupação social muito grande. Ajudamos demais a comunidade, tem o natal das crianças, que nós promovemos, distribuímos cestas básicas, organizamos festas, tiramos molecada da rua, das drogas e trazemos para o esporte”. Bill reestruturou a diretoria, trouxe de volta nomes que eram exigências de pessoas ligadas ao time, diretores que participaram da campanha que trouxe ao time sua maior vitória, a Copa Kaiser de 2001.

Virando o jogo

“A Copa Kaiser modificou completamente o rumo da nossa história. De tantos times daqui (Ermelino Matarazzo), só o XI Garotos ganhou”. A frase é do seo Pereira, homem de 64 anos, 44 vividos na várzea de São Paulo, e que hoje é diretor do Tigre. Em 2001, contra o Mella Pé, o time da quebrada chegou ao título mais importante de sua história, responsável pela estrela vermelha que foi colocada acima do escudo. Com a testa franzida, Bill busca na memória aquela tarde do começo do século. “Cada vitória me traz uma alegria enorme, mas aquela da Copa Kaiser, cara, aquilo foi delicioso… Nossa, que emoção. Uma semana antes, Ermelino estava fervendo, imprensa de São Paulo inteira, a comunidade agitada. Vou te falar, jogamos mal aquele jogo, ganhamos graças a Deus, mas jogamos mal. O jogo acabou 1×0.”

 

A tradicional copa realizada na várzea paulistana é de fato o grande propulsor do nome do XI Garotos na comunidade. O técnico Bahia, que foi jogador do XI e é morador de Ermelino desde 1988, ressalta: “Depois de 2001, esse campo aqui começou a encher de gente, o time virou exemplo pra todo mundo, orgulho do nosso bairro.” Único remanescente da conquista do Tigre, BA é jogador do time há 12 anos, e em 2001 já era titular. Quando chegou para o jogo, algumas crianças correram em sua direção gritando seu nome e outra perguntou. “BA, você vai jogar hoje?”. BA, que sempre morou em Ermelino, há um ano foi morar em Embu das Artes, mas sua relação com a comunidade e o time parece imutável. Sobre a Copa Kaiser, ele diz: “Só quem jogou sabe o que foi aquilo. Depois daquilo, todo jogo do XI tem torcida, vem 3 ou 4 ônibus, sempre, a turma larga almoço em família e vem ver a gente”.

 

O jogo já está 5×1 para o XI. Bill está mais sossegado. A cerveja já é mais bebida do que derrubada no chão em acessos de raiva com o time. Bill relembra um momento “engraçado” e inusitado, onde se viu transformado pelo XI. “Nesses 29 anos o melhor centroavante que tive aqui é o Boca. Durante um jogo, um cara deu um tapa na cara dele, eu peguei o revólver e saí atirando (risos). Não pegou nenhum, sou muito ruim de tiro, a delegacia ficava do lado do campo, tive que sair correndo. Depois falei para o Boca: ‘O dia que um cara der um tapa na cara e você não revidar, é você quem vai tomar um tiro.’ Depois desse dia, se alguém batia, ele devolvia.”

 

Quando já nos despedíamos, Bill, com os olhos marejados disse: “Eu quero parar um pouco cara, tô cansado, mas eu não quero sair e ver o XI terminar. Sou um presidente que pega água, arruma meião e amacia a chuteira para o cara”. Finaliza dizendo. “Só os XI me fazem chorar, nem por meus filhos eu choro, é muito envolvimento com isso aqui cara, é muita gente que esse time representa.”

Abaixo, o grito de guerra do time:


Fonte: Spresso SP

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